Presidente entrega às FAA fazendas resgatadas ao Fundo Soberano em 2018
O Presidente angolano, João Lourenço, decretou que dois dos projetos de desenvolvimento agropecuário resgatados em outubro de 2018 a cinco empresas detidas pelo Fundo Soberano, à data gerido pela Quantum Global, sejam entregues às Forças Armadas Angolanas (FAA).
Em causa estão o Projeto
de Desenvolvimento Agropecuário do Manquete, na província angolana do
Cunene, e a Fazenda Agroindustrial de Camacupa, na do Bié.
As
concessões foram resgatadas a cinco empresas criadas em 2015 e ligadas à
Quantum Global a 01 de outubro de 2018 e entregues aos ministérios da
Agricultura e Florestas e ao das Finanças, tendo sido agora transferidas
para o da Defesa.
No decreto, de
quarta-feira, João Lourenço autoriza a transferência da tutela
patrimonial, considerando que as fazendas "apresentam um potencial
estratégico" para o desenvolvimento agropecuário nas FAA, "pois a gestão
profícua permitirá às Forças Armadas atingirem a autossuficiência em
alguns produtos agrícolas e de origem animal".
A
01 de outubro de 2018, João Lourenço alegou incumprimento do Fundo
Soberano, liderado até janeiro do mesmo ano por José Filomeno dos Santos
- filho do antigo Presidente -, para retirar a concessão atribuída pelo
chefe de Estado anterior, José Eduardo dos Santos, para a gestão de
seis fazendas públicas.
Na altura, o
decreto presidencial indicou que as fazendas eram resgatadas a favor do
Estado "para posterior privatização em concurso público internacional",
acabando agora por serem entregues às Forças Armadas.
A
decisão, tal como a Lusa então reportou, visava a administração de José
Filomeno dos Santos, que liderava o Fundo Soberano quando, em 2016, o
pai e então chefe de Estado angolano, José Eduardo dos Santos, atribuiu
ao fundo a gestão daqueles empreendimentos agroindustriais.
José
Filomeno dos Santos esteve em prisão preventiva entre 24 de setembro de
2018 e 24 de março deste ano no âmbito da investigação da Justiça
angolana à sua gestão no Fundo Soberano, constituído em 2012 com cerca
de 5.000 milhões de dólares de recursos do Estado.
O
decreto presidencial de então recorda um outro documento, assinado por
José Eduardo dos Santos em maio de 2016, que aprovou, por decreto, a
concessão de projetos de desenvolvimento agrícolas, agropecuários e
agroindustriais de fazendas do Estado de larga dimensão a sociedades
comerciais e que autorizou o Fundo Soberano "a deter a totalidade do
capital das sociedades concessionárias".
Contudo,
argumentou João Lourenço, não foram "observados os princípios e as
normas" estabelecidas no decreto de 2016, "como as cláusulas, as
obrigações e requisitos cumulativos previstos nos contratos para a sua
entrada em vigor, nomeadamente da detenção do capital social", de forma
direta ou indireta pelo Fundo Soberano, ou ainda "o registo de todo o
património em nome do Estado".
As seis fazendas faziam
parte da carteira de investimentos gerida - em representação do fundo
soberano - pela empresa Quantum Global, fundada e liderada pelo
suíço-angolano Jean-Claude Bastos de Morais, que, tal como José Filomeno
dos Santos, esteve em prisão preventiva entre 24 de setembro de 2018
último e 22 de março deste ano no âmbito do mesmo processo.
Em
causa estão algumas das maiores fazendas do país, construídas com
investimento público, como a do Longa (província do Cuando Cubango),
cuja gestão estava entregue à sociedade Cakanduiwa, a de Camaiangala
(Moxico), à Kadianga, a do Cuimba (Zaire), à Cakanyama, a do Manquete
(Cunene), à Makunde, a de Camacupa (Bié), à Agri-Gakanguka, e a de Sanza
Pombo (Uíge), também à Cakanyama.
Totalizam cerca de 70.000 hectares e concentram a produção em grãos, oleaginosas e arroz.
No
decreto em que José Eduardo dos Santos autorizou em 2016 a entrega da
gestão das fazendas ao Fundo Soberano estava prevista uma concessão
inicial por 60 anos, renovável por períodos de 30 anos, bem como que o
próprio fundo assumisse a totalidade do capital social das empresas que
receberam aquela gestão, mas que pertenciam à Quantum Global.
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