Caso CNC: Ministro dos Transportes sem explicações de como era fiscalizado o Conselho Nacional de Carregadores
O ministro dos Transportes de Angola manifestou-se incapaz de esclarecer, em tribunal, o modelo de fiscalização e controlo do Conselho Nacional de Carregadores (CNC) que encontrou ao assumir funções, explicando apenas o método que adotou.
"Não consigo colocar-me
no tempo e no espaço para responder como era feito o exercício de
fiscalização e acompanhamento do CNC", respondeu Ricardo de Abreu, que
foi testemunha no julgamento do caso CNC, iniciado a 31 de maio passado,
no Tribunal Supremo, em Luanda, no qual um dos nove réus é o seu
antecessor, Augusto Tomás.
A 22.ª sessão de
audiência contou com a audição de nove testemunhas, das quais quatro
foram arroladas pelo tribunal e as restantes pela defesa do réu Augusto
Tomás.
Augusto Tomás e os corréus Isabel
Bragança, Manuel António Paulo, Rui Moita e Eurico Pereira respondem por
vários crimes, entre eles o de peculato, pelo uso indevido das receitas
do CNC, constando da acusação um prejuízo global ao Estado no valor de
cerca de 3,9 milhões de euros.
Além de
Ricardo de Abreu, foram testemunhas hoje, arroladas pelo tribunal, o
atual diretor-geral do CNC, Catarino Fontes Pereira, a diretora nacional
do Tesouro, Miriam Mendes Custódio e a diretora do gabinete jurídico da
Administração Geral Tributária (AGT), Hélia Miguel Estêvão.
Ao
ministro dos Transportes, a defesa de Augusto Tomás questionou se houve
um processo de passagem de pastas quando assumiu funções, ao que
respondeu afirmativamente, salientando que o mesmo decorreu de forma
"pacífica, tranquila e sem sobressaltos".
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Questionado
ainda pela defesa se o titular do poder executivo pode dar ordens para o
pagamento de uma determinada despesa, Ricardo de Abreu usou novamente o
argumento de que não se pode colocar no espaço e no tempo para uma
resposta.
Ricardo de Abreu disse ainda que
durante o seu mandato instituiu um mecanismo de acompanhamento do CNC e
outros institutos e empresas do setor, que consiste na apresentação
semanal de relatórios, com a arrecadação de receitas e a posição dos
saldos, que depois se refletem na Conta Geral do Estado.
Por
sua vez, o diretor-geral do CNC, Catarino Fontes Pereira, disse que
semanalmente apresenta um relatório da disponibilidade financeira ao
órgão de tutela, ou seja, ao Ministério dos Transportes, para controlo
das receitas, gastos semanais e mensais.
Instado
pela defesa a responder se foi indicada alguma conta do Estado para o
depósito das receitas do CNC, Catarino Fontes Pereira respondeu
negativamente e que o dinheiro se mantém nas contas do instituto.
Sobre
as receitas arrecadas pelo CNC, o diretor-geral afirmou que as mesmas
não são fixas, mas desde que tomou posse as receitas brutas foram, até
segunda-feira passada, de 77,8 milhões de dólares.
Já
a diretora do gabinete jurídico da AGT informou que as receitas
arrecadadas pelo CNC devem ser depositadas numa "conta de receitas" e
diariamente a sua totalidade transferida para a Conta Única do Tesouro.
O
tribunal ouviu ainda o antigo ministro dos Transportes de Angola André
Luís Brandão, o ex-presidente da Federação Angolana de Futebol Justino
Fernandes, o antigo ministro de Estado e chefe da Casa Civil do
Presidente da República Carlos Feijó, o atual presidente da comissão de
gestão da Empresa Nacional de Exploração de Aeroportos e Navegação Aérea
e o empresário Ismael Diogo, testemunhas arroladas pela defesa do réu
Augusto Tomás.
André Luís Brandão, que
dirigiu o Ministério dos Transportes entre 1992 a 2008, esclareceu a
compra de uma participação de 10% pelo CNC no Banco Internacional de
Negócios, tendo adiantado que se tratou de uma orientação do antigo
Presidente angolano José Eduardo dos Santos e esta questão constava da
lista de assuntos por concluir que entregou ao seu sucessor.
Relativamente
ao valor pago, André Luís Brandão referiu não se recordar, mas a
orientação ocorreu numa conjuntura em que se estava a incentivar o
aparecimento de instituições financeiras, salientando que, além do CNC,
outras empresas do setor também adquiriram participações em bancos, como
são o caso da TCUL (Transportes Urbanos de Luanda) e do Porto de Luanda
no Banco de Comércio e Indústria.
A
audiência de julgamento prossegue na quinta-feira com a audição de
Manuel da Cruz Neto, deputado à Assembleia Nacional, João Ernesto dos
Santos, ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria, de Rui
Carreira, presidente da comissão executiva da TAAG (Linhas Aéreas de
Angola), de Fiel Didi e de Nuno Pereira, testemunhas da defesa dos réus.

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